
 
Havia um lenhador que procurava
pela árvore da paz. Ele a procurava nos lugares mais remotos, onde ser
humano ainda não houvesse trilhado. Escalava as montanhas mais altas,
pendurava-se à beira de grandes abismos. Há anos viajava o lenhador,
passando por vários países, pedindo informações. Houve quem disse: —
Meu avô me contou que seu avô lhe contara que havia uma árvore assim. Era
imensa, frondosa. As pessoas se sentavam à sua sombra e descansavam
felizes, tranqüilas, em paz. O lenhador experimentava várias árvores.
Sentava-se à sua sombra, mas surgiam pensamentos, sons, imagens,
nevoeiros. Surgiam guerras, massacres, dores, mortes, grandes desastres.
Cabisbaixo se afastava e noutra região procurava. Foram se passando os
anos. Seus cabelos embranqueceram. Suas sobrancelhas também. Suas
pernas já não eram tão fortes. O machado fora trocado por um cajado. Mas
não desistira da empreitada. Por toda a Terra caminhava, perguntando a
toda gente, esperando que alguém, que alguma coisa lhe levasse à árvore
tão almejada. Um certo dia parou, cansado e pensativo. Será que era
fantasia, que na verdade não existia essa árvore da Paz? Encostou-se num
tronco qualquer, apoiando-se no braço para que os passantes não vissem que
chorava de cansaço. As lágrimas foram caindo no terreno seco e árido.
Soluçava nosso amigo, da procura de uma vida. Mesmo se a encontrasse agora
como poderia levar suas sementes a tantas e tantas gentes? Correra o
mundo, é verdade. Estava a poucos passos da cidade de onde saíra, jovem e
bem disposto, confiante que encontraria a legendária árvore que tudo
transformaria. Tinha se tornado impossível viver como todos viviam.
Roubavam e mentiam, medrosos se escondiam dos mais fortes, temerosos.
Alguns ricaços gorduchos, panças inchadas de tanto luxo. Outros magros,
arqueados, de fome morrendo dobrados. Havia os roncos medonhos de aviões
tenebrosos, lançando bombas que em sangue marcavam o território. Havia a
disputa mesquinha, que levava ao preconceito e à discriminação. Crianças
eram abusadas, maltratadas, empregadas a pedir esmolas por jogar algumas
bolas nas esquinas de quem tinha muito para dar e nada dava. Ele era um
lenhador, saído dos contos de fadas, das histórias mais antigas de
aventuras e justiça, de verdades que são ditas e transformam realidades.
Crescera sonhando um dia poder tudo revirar para que a paz retornasse ao
seu lar e a de seus amigos, vizinhos, conhecidos e até mesmo de estranhos
que estranhamente se comportavam... Caminhara e caminhara. Ouvira
histórias fantásticas, daquele homem da Índia que conseguira mudanças sem
guerras, sem violências, no respeito e na decência. Mahatma Gandhi. Bom
demais pensou quando menino lendo de sua história. Foi colocando na sacola
os livros, os sonhos, a esperança. Na Índia também houvera o Buda Sagrado,
que predissera que um dia tudo se transformaria. As pessoas confiavam que
se seguissem seus ensinamentos haveria compaixão e sabedoria suprema. Logo
a ternura se espalharia e todos se ajudariam como bons irmãos. Cada
lágrima dos olhos do ancião fazia brotar na terra um verde
inesperado. Teria sido por tudo e por todos, abandonado? Mas de
dentro dele surgiu uma força incomensurável. “Nada é impossível. Haverei
de conseguir encontrar o fruto dessa árvore de paz, a semente da
verdade.” Ainda de olhos molhados, sentou-se ofegante. Tocou a terra
coberta de grama nova, macia. Encostou-se no tronco forte e sem perceber,
meditava. No que se seguia lembrou-se do próprio Buda, que vivera na
Índia por volta do século VI antes de Cristo, e a todos amavelmente
sorria. Monges e monjas, pessoas de todas classes, castas, feições, cores,
etnias. A todos Buda pregava dizendo dos venenos perigosos que matam a
paz, a felicidade, a alegria. O primeiro é a ganância. Quero e quero
sem parar. Por mais que tenha sempre quero mais. Seja amor de minha mãe,
atenção do professor, seja doce, sejam roupas, sejam carinhos, sejam
diversões. Seja dinheiro, seja fama, seja luxo, sejam armas, seja amor.
Dessa ganância vão surgindo ciúmes, ressentimentos, más ações e
pensamentos. Logo faz algo errado, perde a paz, a tranqüilidade. Vive
sedento de tudo e nada traz felicidade. Só o que cura esse mal é a doação,
o entregar-se, o dar invés de cobrar. O segundo é a raiva, danada de se
conter. Enfurece por amor, por ódio e até por prazer. Parece que a pessoa
passa a achar bonito quem fica furioso. Chega até a dizer que é
“personalidade forte”. Na verdade são seres para serem apiedados, pois não
conseguem, coitados, transformar a indignação em suave
compaixão. Compaixão significa saber o que o outro sente, compartilhar
das tristezas, das dores das amarguras e fazer trabalho lindo de recuperar
as criaturas. Porque sente com. Porque sente junto. Nós não rimos quando
alguém conta uma coisa engraçada? Não choramos com filmes, histórias,
foto, situações? Quando sabemos de alguém sofrendo queremos ajudar. A
compaixão é natural, se formos naturais. O terceiro veneno é a
ignorância. Ignorância significa afastar-se da verdade. Estar dividido,
partido, sem saber mais que somos uma só vida em movimento. Somos um só
corpo universal se transformando constantemente. No que mexemos aqui, lá
do outro lado repercute. Essa ignorância não é apenas falta de estudos. É
falta de contato com o Sagrado, com a Essência de tudo. Seu antídoto
infalível é a Sabedoria Completa. O resultado de tudo é a árvore da Paz
florindo e cobrindo o mundo.
- Monja Coen Shingetsu -
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