Diariamente nos são apresentadas grandes oportunidades de
interagir com as pessoas, de conhecermos um pouco mais do outro,
de trocarmos experiências positivas, mas muitas vezes nós nos
fechamos a elas.
Essa história aconteceu comigo há alguns anos.
Era um dia de sol escaldante e estava indo ao banco pagar
algumas contas.
Quando entrei no banco, enquanto estava na fila, percebi do lado
de fora uma senhora com cerca de quase setenta anos sentada no
chão, encostada a um poste, de cabeça baixa e com um grande
crachá no peito.
A cena me intrigava, ao perceber que tantas e tantas pessoas
passavam por ela e nenhuma delas, sequer olhava pra ela, quanto
mais perguntar se ela precisava de algo.
Com um grande incômodo em meu coração, eu saí da fila e me
dirigi a ela, perguntei se ela estava com fome, se gostaria de
comer algo. Ela com um sorriso, levantando a cabeça, me disse
que sim. Comprei, então, na padaria mais próxima um suco de
laranja e um lanche. Ela me agradeceu, sentei no chão com ela e
percebi seu crachá com a palavra Epilepsia". Chamava-se
Domingas. Numa conversa, ela me explicava que o colocava para se
caso tivesse alguma crise na rua, soubessem o que era, para
socorrê-la corretamente.
Foi, então, que ela me disse que sentada em frente ao banco,
esperava conseguir até o fim do dia o dinheiro para comprar seus
remédios.
Tirou de uma pastinha receitas de remédios, me disse também que
estava com câncer.
Foi, então, que ela me disse com um olhar que não esqueço -
cheio de esperança - "Deus há de me ajudar e eu vou conseguir os
meus remédios, minha filha..."
Comovida, eu lhe pedi a receita e pedi que esperasse.
Fui à farmácia. A conta não era pequena, mas ainda assim, fiz
questão de atender ao chamado do coração e comprá-los todos.
Ao voltar pela rua com o saco de remédios nas mãos, ela ao me
avistar, começou a chorar e levantar as mãos para o céu....
Me deu um abraço apertado e emocionado e perguntou-me como
poderia agradecer.
E eu lhe respondi que não precisava agradecer, pois a partir de
hoje ela era minha avó...
Conheci sua história de luta, catando latinhas, pedindo para
conseguir comprar os remédios e pagar um aluguel numa casinha
simples em Itaquera - bairro da periferia da zona leste de São
Paulo.
Sua casa tão simples, estava sempre limpa... E ela prezava por
isso...
Morava com um senhor, seu companheiro também doente e com seu
sobrinho deficiente, mas sem jamais perder a fé e a esperança de
melhorar a cada dia.
Tive a oportunidade de encontrá-la inúmeras vezes, levar-lhe
alimentos, roupas, mas o mais importante: Amor.
Era o que ela mais precisava.
A acompanhei em sessões de quimioterapia, conversávamos por
vezes...
E ela me chamava de minha neta....
Hoje ela já não se encontra mais ao meu lado - ao menos
fisicamente.
Ela foi uma dessas pessoas maravilhosas que encontramos pela
vida.... a quem nos deixamos prestar atenção e aprender....
Ela foi uma dessas pessoas que têm úma fé maior do que muita
gente que diz saber sobre a vida.
Ela era cheia de vida, mesmo portando uma doença.
Ela era maior do que a doença.
Ela era luz!
E era isso que seu olhar transmitia... Era isso que seu sorriso
transmitia...
Quando nos permitimos sermos contagiados pelo outro, comungamos
com ele, nos tornamos família... Não somos mais estranhos um ao
outro...
Nos tornamos avós, netos, irmãos, pais e filhos.... famílias de
náo-sangue e sim, de coração... coisas da alma!!
Talvez você também possa se permitir entrar no mundo de alguém
que pra você seja um estranho.
Talvez você possa se permitir conhecer a realidade das pessoas a
sua volta.
Visitar um hospital, um asilo, uma comunidade carente, prestar
atenção nos encontros diários...
Talvez você possa fazer mais do que suas preces cotidianas...
Talvez você possa ser a fé em ação... talvez você possa agir com
seu coração...
Talvez você possa quebrar os preconceitos e os dogmas, que lhe
afastam das pessoas..
Talvez você possa dizer "Bom dia", Talvez você possa dizer
"Posso lhe ser útil?" a alguém que não convive dentro da sua
casa.
Talvez você possa prestar atenção à dor das pessoas e ser
solidário.
Talvez você possa perceber que sua dor não é tão grande como a
das pessoas a quem você pode servir com o melhor de você.
Talvez você entenda o quanto sua palavra é importante.
O quanto o seu gesto pode ser definitivo na vida de alguém.
O quanto seu sorriso vale por vezes - mais do que mil
palavras....
Talvez você possa abençoar as pessoas, ao invés de continuar
lamentando e julgando-as...
Talvez você possa aquecer corações com frio...
Talvez você possa fazer diferença ainda hoje...
Estender suas ações a muito mais gente...
E motivar outras mais pela sua força de vontade...
Ou talvez essas palavras sejam apenas palavras pra você...
Mas antes que elas se percam em sua memória, eu lhe convido a
refletir profundamente sobre elas e se abrir às pessoas e
servi-las.....
Abra as fronteiras de seu mundo limitado e olhe ao seu redor.
O que você poderia fazer hoje mesmo? Quais marcas você tem
deixado nas pessoas?
Não se esqueça das coisas que o dinheiro não paga....
Das coisas que o tempo não leva...
Das coisas que são cravadas no fundo da alma - para sempre!